Previsivelmente Irracional

Previsivelmente Irracional

Em mais um livro de um renomado autor no campo da economia comportamental, vemos que conhecer mais sobre nossa mente é essencial para termos mais atenção às nossas decisões.

Dan Ariely aborda diversos aspectos da vida em que agimos de modo irracional, e nesta resenha vou comentar os pontos em que enxerguei relações com o trading ou mercado financeiro.

Quer ver como emoções fortes, procrastinação e apego têm a ver com as negociações no mercado? Então vamos!

1. Efeito automanada

O efeito manada provavelmente é um dos fenômenos de comportamento mais conhecidos do mercado. Ele ocorre quando agimos conforme as outras pessoas, sem questionar.

Sabe quando está todo mundo vendendo suas ações e o sujeito decide que é melhor vender também? É o efeito manada em ação.

Mas o livro acrescenta que existe o chamado comportamento de automanada, que é quando a pessoa julga se algo é bom ou ruim de acordo com a maneira que ela mesma agiu anteriormente.

Exemplo: um trader escolhe operar uma ação sem ter muito motivo e acaba conseguindo um bom lucro. Na semana seguinte, enquanto planeja seu próximo trade, se lembra daquele mesmo papel.

Apesar de saber que o ideal é avaliar as oportunidades, pensar na relação risco:retorno e fazer outros estudos, termina por abrir uma posição naquela mesma ação. Ou seja, ele tomou uma decisão com base no resultado anterior em vez de fazer um bom processo de análise.

Certo, mas como evitar?

O autor deixa claro que deveríamos nos acostumar a questionar os próprios comportamentos. Portanto, é bom observar especialmente as condutas repetitivas e tentar responder por que está fazendo as coisas daquele jeito e não de outro.

2. Emoções intensas prejudicam a clareza nos trades

No capítulo 6 — A influência da excitação —, Ariely explica que nós tendemos a subestimar em que nível uma experiência de emoções intensas pode afetar o nosso comportamento.

Dito de outra forma: dificilmente temos noção de como vamos reagir em situações de muita raiva, dor, excitação etc.

É como se as fortes emoções pudessem bloquear parte de nossa capacidade de julgamento, levando-nos a tomar decisões erradas.

Isso conecta muito com o que o André Machado (Ogro de Wall Street) fala sobre evitar operar em momentos emocionalmente complicados. A morte de um ente querido, uma discussão familiar e outras ocasiões que causam confusão mental costumam prejudicar a clareza dos pensamentos e acabam afetando seu desempenho como trader.

3. Não colocar stop é procrastinar a proteção do seu capital

Na parte em que discute a procrastinação, o autor fala que, em geral, temos uma predisposição a procrastinar.

Para combater o problema, ele sugere usar métodos que nos ajudem a evitar cair na tentação de deixar algo para depois.

Esses métodos, que Ariely chama de ferramentas de pré-compromisso, consistem em se comprometer desde o início com o que precisa ser feito. Um exemplo seria postar sua meta de leitura para o ano nas redes sociais — você se compromete publicamente que lerá um dado número de livros no prazo estabelecido.

Tudo isso me fez pensar: será que o stop não é uma ferramenta de pré-compromisso de proteção do nosso capital sempre que iniciamos um novo trade?

4. Apego a certas ações do seu portfólio

Outro efeito interessante é o efeito dotação, que acontece quando supervalorizamos algo que possuímos em comparação ao valor que outras pessoas ou o mercado dão para aquilo.

Para exemplificar, suponha que eu tenha ganhado um excelente pen drive num famoso evento do mercado financeiro. O valor pelo qual eu estarei disposto a vender esse item provavelmente será maior do que o valor pelo qual as pessoas, em média, estarão dispostas a comprá-lo.

Isso não vale apenas para coisas que a gente ganha, mas também para o que compramos. E para explicar por que isso acontece, o autor oferece estes 3 motivos:

  • nós costumamos nos apaixonar pelo que já possuímos;
  • damos mais importância ao que temos a perder do que ao que temos a ganhar;
  • achamos que os outros têm a mesma perspectiva que nós sobre o valor daquele objeto.

Talvez isso seja mais uma razão para explicar por que é tão difícil vender uma ação daquela empresa da qual você gosta tanto. Acredito que seja ainda mais intenso quando a sua operação está dando prejuízo e você sente aquela intuição de que o mercado não está dando o devido valor àquele ativo.

5. Falsa impressão de que ações baratas são de empresas ruins

O último insight veio do capítulo 11 — O poder do preço. Nele, o Professor Ariely descreve um experimento em que voluntários são submetidos a choques elétricos, em seguida tomam uma pílula que acham ser capaz de aliviar a dor (na verdade era apenas vitamina C) e depois passam novamente pela sessão de choques.

Para os voluntários informados inicialmente que o medicamento custaria US$ 2,50, os relatos foram que a pílula aliviou a dor causada pelos choques. Já em outro grupo, que recebeu a informação inicial de que o medicamento custaria apenas US$ 0,10, só metade das pessoas relatou alívio.

O experimento mostra nossa propensão em associar o preço à qualidade do produto. Assim, a gente supõe que algo mais barato tende a ser inferior.

Eu não sei você, mas eu já tive a impressão que ações baratas são de companhias ruins. Hoje em dia sei que isso não corresponde à realidade, mas iniciantes podem ter essa sensação.

Existem empresas em recuperação judicial cujas ações valem centavos, mas há inúmeros papéis negociados na faixa de R$ 10,00 ou menos, e isso não significa que pertençam a negócios mal administrados.


Enfim, além de me conduzir a essas 5 ideias que abordei, o livro só reforçou que compreender as ciladas da mente e consequentemente se conhecer melhor é fundamental para a gente se desenvolver.

É um impacto muito semelhante à leitura do Rápido e Devagar. Aliás, recomendo aos interessados nessa obra do Daniel Kahneman que comecem pelo Previsivelmente Irracional — é mais agradável de ler e não tem aqueles conceitos de estatística que podem assustar quem está começando a entender o que é economia comportamental.

Mas também não quero parar por aqui. Próximo livro sobre o tema: Misbehaving, de Richard Thaler.

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